A manhã acordou com um cheiro insuportável no quarto. "Cheira a gato morto", pensei. Fui mudar a fralda da miúda. Estava sequinha. Deixei-a na sala e fui tomar o pequeno-almoço. Estava calor e abri a janela. A minha Senhora juntou-se a mim, mas foi fechar a janela, por causa das moscas. Encostou a cabeça no meu ombro, e com aquela voz rouca de quem acaba de acordar disse-me ao ouvido: Cheiras a gato morto. E realmente cheirava. Ela não podia gozar muito, porque o cheiro dela não era melhor. Fomos tomar banho (separados) e abolimos a poupança de água e gás.
Hoje foi dia de ir às compras, faltava leite e pão, e mais umas latas de atum, não fosse vir por aí dias piores. Papel higiénico ainda há. Vesti um fato de macaco, uma máscara de soldar nas trombas e luvas, e lá fui. Na fila do supermercado estavam duas senhoras de meia idade e um senhor que manqueja de uma perna. O senhor tinha prioridade, mas as senhoras não gostaram e puseram-se a praguejar. Vem lá de dentro a Sueli e acerta-lhe com duas embalagens de rissóis congelados nas trombas, de cada uma, respetivamente. Parecia que andava a guardar os rissóis para aquele momento. E acabou a discussão. A Sueli voltou para dentro satisfeita, não sem antes chegar à minha beira, com 2 metros de afastamento, e entregou-me uma latinha de atum: "para que não te falte nada", disse baixinho. Obrigado Sueli. Eu aproveitei e fiquei também com os rissóis. Paguei à saída.
Lá dentro o ambiente estava pesado. Os gatos já tinham sido requisitados civilmente para efetuar serviço socialmente necessário. Um controlava as entradas e outro ensacava as compras. Como o vírus não ataca os bichos, achei boa ideia. A Maria já tem a voz rouca de tanto gritar com os velhinhos que vêm depois da hora legal. Faz lembrar o Pai Natal que costuma estar por lá nas vésperas do Natal.
Aviei-me o mais depressa que pude e voltei a casa, também o mais depressa que pude. Pelo caminho ainda passei pela Elisabete que ia arejar as flores à loja e fazer um arranjo, talvez. Levantei-lhe a mão, mas ela não me viu. Se estiveres a ver isto, era eu.
Em casa encontrei o costume. Fui à caixa de correio e tinha uma carta das Finanças. Era SPAM, foi pró lixo imediatamente. Entretanto liguei ao responsável do executivo municipal por causa da recolha do lixo. Queria ver se podiam vir buscar-me o lixo dentro de casa, para evitar grandes deslocações ao exterior. Começou a explicar-me que não podia, tomara eles que não faltasse pessoal para recolher o lixo dos contentores, quanto mais dentro de casa. Realmente...quando as pessoas não querem...
Pra mudar a ementa diária, pus um bocadinho de óleo a aquecer, para fritar os rissóis. Olhei melhor para a embalagem e dizia: rissóis de atum. Ora porra. De qualquer forma trouxe uma garrafinha de Cacho Fresco, que no fundo vai saber a Moet Chandon, dado que já não se bebe álcool há muito tempo no Feital.
Mas a verdade é que o tempo é coisa que passa rápido nesta quarentena.
Já escolhemos o que fazer no serão de hoje. Vamos jogar à sueca. Eu e o cão, e a minha Senhora com a minha filha mais nova. O cão percebe do jogo. Põe-se a piscar o olho quando tem trunfos altos. Mas também pisca o olho quando a orelha lhe cai para a frente e eu fico desorientado.
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