sábado, 21 de março de 2020

Dia 6

COMUNICADO DA REPÚBLICA POPULAR DA RUA DO FEITAL

Concidadãos e Concidadonas
Face ao gravíssimo estado a que chegou o país, decidimos por unanimidade dos presentes (eu, a minha senhora, a miúda e o cão) encerrar as fronteiras da Rua do Feital com o resto do território, criando a República Popular da Rua do Feital.
Fui eleito Regedor da Região, sendo o Ti Zé nomeado Regedor Emérito. 

Para evitar contactos sociais com o exterior, foi criado um cordão sanitário, mas só não passa quem não quiser. Solicitei ao Ti Pinho o bloqueamento da Rua a norte com o trator, e a sul dinamitamos o muro que tombou para a estrada. Todas as travessas e ruas adjacentes foram bloqueadas com sacas de ração, cestos de vime e caixas de fruta, nomeadamente.
Pedi a um residente do território vizinho da Travessa da Lagoinha para atravessar o camião na estrada, deixando apenas uma pequena nesga para se passar a pé. Será a nossa única via de contacto com o exterior para irmos à extensão de saúde e à farmácia da doutora Filipa, apenas e se necessário.

Foi já estabelecido um Gabinete de Crise, nas instalações provisórias do Núcleo Sportinguista do Feital, uma vez que estão habituados a lidar com crises. A Presidência será assumida por um ilustre sportinguista filho desta terra, co-adjuvado por outro ilustre sportinguista residente desta mesma rua, que prontamente responderam ao convite.

Reativamos a loja da ti Carma para servir de entreposto comercial para colmatar as nossas necessidades alimentares e outras. 
Já nos chegou a primeira remessa de papel higiénico de um fornecedor chinês. Relembro os concidadãos e concidadonas que antes do vírus a empresa produzia lixa grossa. O papel higiénico é ligeiramente mais áspero que o normal, mas o rabo tende a habituar-se. 

De imediato pedi à nossa Secretária - Geral das Relações Externas que vem a ser a minha Senhora para estabelecer contactos com as regiões vizinhas para não perdermos a forte ligação que nos une a elas. Só recebemos resposta da Comunidade Autónoma das Terras da Beira Ria e Bestida. Do Ministério dos Negócios Estrangeiros, localizado nas instalações na Mamaparda, recebemos a informação de que havia interesse em manter ligações amistosas com a Rua do Feital, pelo que já estamos a efetuar acordos bilaterais. Já instalamos a nossa embaixada no Snack Tasca o Farol.

Estabelecemos um Corpo de Forças Armadas na Sede da Seleção Vinícola, embora já se considere que o edifício esteja em território vizinho, mas como ficou pra cá do camião e foi pacífica a tomada das instalações, agora é nosso. Dos 3 Ramos das Forças Armadas, para já só temos Marinha. Trata-se de um mergulhador que percorre diariamente a Regueira do Feital, para evitar açambarcamentos e invasões. O Comandante Geral é, temporariamente, o Regedor Emérito.

Ainda não temos Corpo de Bombeiros. Fizemos uma requisição civil, mas não obtivemos respostas. Começamos a adquirir material necessário. O Gabinete de Crise tentou a importação de mangueiras, machadinhas e capacetes da Casa Barrega, mas não há stock. Mais logo a nossa task-force (ainda por criar) invadirá a República Federal de Beduido e Veiros para nacionalizar temporariamente o Luisinho e trazer de lá o material necessário.

Parece fácil, mas tudo isto foi feito num dia só e cansamo-nos muito e continuamos sem banho. Temos uma nova vida pela frente. A Rua do Feital não será mais a mesma.
O tempo dirá se foi a melhor decisão. E como sabem, tempo não falta nestes dias.

Esta noite haverá Conselho de Estado do Feital, por vídeo conferência. No fim vamos assar uma chouriça de atum. O vinho é tinto, recebido após requisição civil, à Casa da Ermelinda. Do bom. 

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