domingo, 29 de março de 2020

Dia 13

Estava eu já com a perna levantada para pular a cerca quando tocam à campainha. "Quem raio anda a tocar à campainha à meia noite?", pensei.
Levantei o auscultador e perguntei quem era. "Tem um minuto para falar sobre o Senhor?", ouvi do outro lado. "Qual Senhor?", perguntei. "O Todo Poderoso", responderam do outro lado.
Mas por alma de quem andam estas criaturas a esta hora a querer falar sobre o Luís Filipe Vieira? Foii o que me passou pela ideia. 
"Olhe, desculpe, mas isto não são horas pra falar seja sobre que assunto for, ainda por cima sobre o Orelhas...", e continuei a descompor as criaturas, que devem ter ido para casa com as orelhas a arder. 
Ainda voltei pra cama, mas já não me saíam as orelhas do Vieira da cabeça, e perdi a vontade de pular a cerca.

Acordei pela fresquinha e fui passear o cão até à Ribeira do Gago. Nunca o tinha feito, mas o cão pediu muito, e lá fomos. Ele começou a puxar por mim e quando dei por nós estávamos a chegar aos passadiços a norte da praia da Torreira. "E agora como é que a gente volta pra trás?" E o cão olhou para mim com ar arrependido como quem diz: "Estás à espera que responda? Os cães não falam..." Metemos pés ao caminho e lá voltamos. Já eram perto das seis horas quando chegamos. Ainda paramos na Ti Alcina, que estava fechada, mas perguntamos se podiamos levar um mata-bicho no take-away e ela lá deixou. 

Em casa o cenário estava tranquilo. A miúda tinha virado o sofá ao contrário e amarrou a mãe a uma perna da mesa. Dizia que era o pirata da perna de pau, com olho de vidro e cara de mau. Ameaçou soltar-me os cães se eu avançasse para dentro. Esqueceu-se que o único cão que temos estava comigo. 
Entrei sem medo, acabei com aquele circo e vai ficar de castigo por uns dias, até perceber quem realmente manda. E não vai haver biscoitos da Sofia para ninguém. 

Antes de ser amarrada à perna da mesa a minha Senhora esteve a fazer umas bolachas de chocolate. Deu-me a provar metade de uma bolacha e pediu-me a opinião. Estavam boas, mas estavam doces e a saber a chocolate e ela sabe como eu sou esquisito nessas coisas. Fui buscar uma inteira para provar melhor e ela: "Não comas mais. Podemos receber visitas e depois não temos nada para oferecer."
Visitas? Nesta altura? 
Em Quarentena não se recebem visitas, cachopa, e não é por falta de tempo. 

Tendo em conta o castigo, foi necessário aplicar medidas mais restritivas na Casinha do Feital. A televisão foi desligada e mais logo vamos para a cama mais cedo. E ainda não decidimos se vamos passar as férias da Páscoa fora. O Ministro já disse que vai estar atento a quem andar a passear na Páscoa, porque em período de Emergência não é para passear. Se ele estiver tão atento a isso como à malta que entra e sai de Ovar pelo meio da mata...estamos safos.

Sem comentários:

Enviar um comentário