segunda-feira, 30 de março de 2020

Dia 15

Já passaram duas semanas desde que começou a quarentena na Casinha do Feital. A bem da verdade científica, já podíamos ir à nossa vida, tentar fazer umas férias no Algarve, ou ir tirar umas fotos com o cão à Torreira. Mas vamos continuar por casa, até porque isto não é mau de todo, e o tempo hoje não convida a grandes passeios. 

Ontem ainda fomos dar um passeio à Torreira, mas a GNR estava a bloquear os carros todos na Ponte da Varela a perguntar para onde ia a malta. Era uma fila que vinha até à rotunda do depósito da água. Parecia S. Paio em noite dos DAMA ou do Fernando Daniel. Ainda andamos pelo meio de becos e vielas, e fomos sair um bocado à frente dos pinheiros do Mancão. Mas voltamos pra casa, porque já eram quase cinco, e às seis começam uns bonecos no Baby TV que a miúda gosta de ver.

De qualquer forma, estamos a ficar com escassez de paciência para as parvoeiras uns dos outros. A nossa filha mais nova já nem nos fala como dantes. Parece que está à espera que a gente diga alguma coisa para começar logo a ranhosar. A minha Senhora já só me fala por monossílabos. Mas tirando isso está tudo bem. 

Decidi começar a fazer criação de frangos caseiros. Cerquei ali uma parte do quintal, para o cão deixar os bichos à vontade, e fui procurar um pito no Facebay - Murtosa. Ainda não encontrei, mas se alguém tiver pelo menos um pito que já não use, eu posso tentar tratar dele cá em casa. Com o tempo podemos até começar a receber encomendas para vender pito para fora, ao fim-de-semana, e podemos também fazer entregas de pito ao domicílio. Mas para já, é preciso arranjá-los, porque depois não falta tempo para criar o pito. Na quarentena não falta tempo. 

Esta noite vamos aproveitar para fazer uma coisa que não fazemos há muito tempo. Temos um resto de cachaço de atum que sobrou do almoço de ontem, por isso não precisamos de nos preocupar com jantar. Logo depois começa uma bela noite de karaoke, naturalmente com a entrada livre, limitada à capacidade higiénico-sanitária de duas pessoas adultas, uma criança e um cão. Já estou a afinar a voz para a Lusitana Paixão da Dulce Pontes. 

domingo, 29 de março de 2020

Dia 14

Hoje é Domingo, e ainda por cima mudou a hora. Andamos todos trocados.
Ao início da tarde calhou-me na rifa ir adormecer a minha mais nova. A miúda insistiu que eu contasse uma história. Não me lembrei de outra a não ser esta: 

Era uma vez, uma linda menina, que vivia com os seus dois irmãos numa bela aldeia. Um dia, porque era preciso manter o distanciamento social, decidiram construir cada um a sua casinha. Um deles, que era preguiçoso, fez uma casinha de palha, o outro fez de madeira e a menina fez uma casinha de tijolo. 
Foi então que veio um Lobo Mau de Espanha, e ameaçou soprar nas casinhas para as deitar abaixo, se não o deixassem entrar. Os 3 irmãos saíram a correr das suas casinhas e, muito indignada, a menina gritou para o lobo:
- Você pode parar com isso? Sabe muito bem que ao soprar pode expelir goticulas de saliva ou outras secreções, e sabemos lá se você está contaminado com o COVID... E como é que você passou a fronteira de Espanha? 
Ao ouvir aquelas palavras, o lobo fugiu num ápice e deixou o caminho livre para os 3 irmãozinhos fugirem. 
Queriam voltar a casa dos paizinhos, mas como não tinham a certeza do caminho foram deixando migalhas de pão, para poderem voltar para trás quando se sentissem perdidos. Seguiam no seu passeio higiénico, mantendo a distância de 2 metros, para evitar contágios.
Entretanto foram abordados por uma patrulha da GNR que os alertou: 
- Vós já visteis que estais a largar migalhas de pão, sem terdes desinfetado devidamente as mãos? E se algum indivíduo apanhar as migalhas que vós largasteis e ficar infetado? 
Depressa os irmãozinhos deixaram aquele mau hábito de mexer na comida sem desinfetar as mãos. 
Estavam já perto de casa dos paizinhos, quando repararam numa pequena casinha escondida no bosque e decidiram espreitar. Na cozinha havia 7 pequenos bancos, de volta de uma mesa baixinha e no quarto, 7 pequenas caminhas. Estranharam ser tudo tão pequeno. Eis se não quando chega um autocarro sobrelotado, mas de onde sairam 7 anões, que voltavam do trabalho. Ficaram indignados porque não pode haver aglomerados de pessoas nesta altura, e estavam ali mais 3 pessoas que não tinham justificação plausível. Um dos anões espirrou e foi um ver se te avias. Fugiram todos, cada um numa direção diferente. 
A menina foi a primeira a chegar a casa e a mãe ordenou que imediatamente lavasse as mãos. Passou uns bons 2 minutos de volta da pia da louça até que a mãe lhe pediu que fosse a casa da avózinha levar um lanche reforçado de laranjas por causa da vitamina C.
Ela foi pelo caminho mais longo, porque já sabia que o mais curto era perigoso. Não encontrou ninguém de jeito pelo caminho, só um príncipe encantado muito triste que tinha sido proibido de beijar a bela adormecida, para evitar os contactos físicos.
Quando chegou a casa da avózinha, encontrou a velhinha deitada na cama, com os olhos muito grandes e uma boca ainda maior. Provavelmente estava a ficar doente. Mais rápido que um relâmpago entrou no quarto um caçador armado em parvo, que desatou aos gritos: 
- A menina sabe na alhada que pode está a incorrer ao visitar a sua avó perante as circunstâncias dos factos? As pessoas mais idosas devem evitar contactos desnecessários e eu estou encarregue de alimentar a sua avó, portanto ponha-se a andar. De facto, já ouvira falar que a avó tinha um companheiro, mas não sabia que era caçador.
Assim, muito triste, a menina isolou-se também. Subiu a uma torre bem alta e não saiu mais de lá. Nem para ir às compras. Mandava vir tudo pra casa por um pombo correio (com as vacinas em dia) e depois puxava tudo para o topo da torre com o seu longo cabelo, que deixou crescer, uma vez que não havia estabelecimentos abertos, inclusive as cabeleireiras. E assim viveu feliz para sempre, sem ter página no Facebook, nem conta no Netflix.

Vitória Vitória, acabou-se a história.


Dia 13

Estava eu já com a perna levantada para pular a cerca quando tocam à campainha. "Quem raio anda a tocar à campainha à meia noite?", pensei.
Levantei o auscultador e perguntei quem era. "Tem um minuto para falar sobre o Senhor?", ouvi do outro lado. "Qual Senhor?", perguntei. "O Todo Poderoso", responderam do outro lado.
Mas por alma de quem andam estas criaturas a esta hora a querer falar sobre o Luís Filipe Vieira? Foii o que me passou pela ideia. 
"Olhe, desculpe, mas isto não são horas pra falar seja sobre que assunto for, ainda por cima sobre o Orelhas...", e continuei a descompor as criaturas, que devem ter ido para casa com as orelhas a arder. 
Ainda voltei pra cama, mas já não me saíam as orelhas do Vieira da cabeça, e perdi a vontade de pular a cerca.

Acordei pela fresquinha e fui passear o cão até à Ribeira do Gago. Nunca o tinha feito, mas o cão pediu muito, e lá fomos. Ele começou a puxar por mim e quando dei por nós estávamos a chegar aos passadiços a norte da praia da Torreira. "E agora como é que a gente volta pra trás?" E o cão olhou para mim com ar arrependido como quem diz: "Estás à espera que responda? Os cães não falam..." Metemos pés ao caminho e lá voltamos. Já eram perto das seis horas quando chegamos. Ainda paramos na Ti Alcina, que estava fechada, mas perguntamos se podiamos levar um mata-bicho no take-away e ela lá deixou. 

Em casa o cenário estava tranquilo. A miúda tinha virado o sofá ao contrário e amarrou a mãe a uma perna da mesa. Dizia que era o pirata da perna de pau, com olho de vidro e cara de mau. Ameaçou soltar-me os cães se eu avançasse para dentro. Esqueceu-se que o único cão que temos estava comigo. 
Entrei sem medo, acabei com aquele circo e vai ficar de castigo por uns dias, até perceber quem realmente manda. E não vai haver biscoitos da Sofia para ninguém. 

Antes de ser amarrada à perna da mesa a minha Senhora esteve a fazer umas bolachas de chocolate. Deu-me a provar metade de uma bolacha e pediu-me a opinião. Estavam boas, mas estavam doces e a saber a chocolate e ela sabe como eu sou esquisito nessas coisas. Fui buscar uma inteira para provar melhor e ela: "Não comas mais. Podemos receber visitas e depois não temos nada para oferecer."
Visitas? Nesta altura? 
Em Quarentena não se recebem visitas, cachopa, e não é por falta de tempo. 

Tendo em conta o castigo, foi necessário aplicar medidas mais restritivas na Casinha do Feital. A televisão foi desligada e mais logo vamos para a cama mais cedo. E ainda não decidimos se vamos passar as férias da Páscoa fora. O Ministro já disse que vai estar atento a quem andar a passear na Páscoa, porque em período de Emergência não é para passear. Se ele estiver tão atento a isso como à malta que entra e sai de Ovar pelo meio da mata...estamos safos.

Dia 12

Esta noite passei várias horas em claro a pensar numa coisa: já pensaram se isto dura até ao S. Paio? É que a Páscoa e respetivas celebrações já não vão ser o que era, mas... Mais um ano sem fogo de artíficio? Este povo não aguenta tanto sacrifício. Eu até já parece que estou a ver a página do Facebook Torreira inundada por dezenas de posts e comentários jocosos e outros enganadores, mais uns bonequinhos...
Uns por um lado: "Ai mas no Furadouro vão fazer."
Outros por outro lado: "Oh menina, dentro da cerca santária eles fazem o que quiserem"
Não é fácil.

A meio da tarde fui esfregar a eira, com uma vassoura já meia descabelada que temos para esse efeito. Pus umas calças mais velhas, e uns sapatos que já andavam meio pintados, por alturas do carnaval. O cão não me largava, como de costume. Depois foi pro jardim, e começou a escavar, lá ao fundo, junto à regueira. Deixei-o estar. O pobre tem que se entreter com alguma coisa. Vai daí começo a ouvir as unhas dele a bater em qualquer coisa metálica. Fui lá e eram restos fósseis de um tacho. Ainda havia ossadas de enguias dentro do tacho. Provavelmente da idade média, do tempo em que havia enguias na regueira. Vou guardar. O tacho ainda há de dar jeito, para uma caldeirada de atum.

A minha Senhora deve ter feito alguma. Quando acordamos começou a abraçar-me a dar-me beijinhos no pescoço. "Olha aí, cuidado com o vírus", dizia eu com medo, claro está. Quanto mais eu alertava, mais ela me prendia com os braços. Eu bem que resisti, e ainda acenei com um desdobrável da DGS que lá tenho na mesa de cabeceira, mas qual quê... 
Depois estava a cozinhar uma salada de atum pró almoço e vem ela e agarra-me à falsa fé pelas costas, e enrola-me em papel higiénico. "Não gastes isso mal gasto", alertei eu.
Quando andava esfregar a eira, veio tirar-me a vassoura da mão e começa a puxar-me para dançar. "Que é que tu queres?" perguntava eu. "olha os 2 metros de distância higiénica. Não estão a ser respeitados". 
Isto não há fome que não dê em fartura. De qualquer das maneiras, mais logo pela noite, com mais tempo, vou tirar tudo a limpo. É que em quarentena às vezes parece que nos foge o tempo, e há que aproveitá-lo bem.

Estamos a pensar mandar vir comida de um teique au éi, porque não nos apetece cozinhar e eles prometem que cumprem todos os padrões de segurança e higiene. Só espero que eles tirem as luvas quando vão à casa de banho.
Já montei uma cerca sanitária na cama, por via das dúvidas. Cada um do seu lado, para guardar as distâncias sanitariamente aceites. O problema é que eu vou saltar a cerca.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Dia 11

Ontem a festa "Remember Bluesky" acabou por não acontecer. Mesmo antes de chegar o DJ, houve desacatos violentos e uma queixa anónima nas autoridades levou ao encerramento antecipado do recinto. Um indivíduo de fato roxo e bigode tentou invadir o recinto à força, mesmo após a insistência do porteiro para que abandonasse o espaço por manifesta incapacidade sanitária. Hoje dói-me uma canela de uma bordoada que um agente me mandou, quando fugia para o interior da habitação. Adiante...

De resto acordamos bem. Felizes, com o amor que sempre nos une. Estava eu a tratar do pequeno almoço e fui buscar água ao garrafão. Não estava na última porta do armário, como é ccostume. "Amor, sabes onde está o garrafão da agua?" perguntei. "Está na porta do costume." foi a resposta que ouvi. "Não vejo aqui nada." respondi docemente. "Queres que aí vá." gritou-me ela do outro lado. E dito isto, veio e abriu a porta ao lado da que é costume ter a água. "Ah, afinal não estava no sitio do costume." brinquei, e depois arrependi-me. Não sei se é dos nervos ou do que é, começou a discutir comigo...parecia que vinha a casa a baixo. Ainda tentei pôr água na fervura e só fiz pior. A certa altura ameaçava-me que ia buscar os papeis. Não percebi se eram do divórcio ou papéis higiénicos para me abafar lá no meio. Calei-me. Até me passou a sede. 
Ela vai, sai porta fora. Eu sabia que ela ia voltar, assim como assim, não podemos sair de casa sem motivo válido.

Hoje introduzi-me no teletrabalho. É bom. Uma pessoa está de pijama a tratar de coisas sérias e pode soltar uns gases sem ser necessário ir fazer um passeio higiénico. Não nos podemos esquecer de desligar o microfone das video chamadas antes. 
Melhor do que eu está o cão, que foi voluntariamente obrigado a tirar férias. Assim como assim, ele não costuma sair de casa.

Ouvi dizer que o virus do Corona não sobrevive no álcool. De imediato foi emitido alerta vermelho na Casinha do Feital. No que depender de mim, o bicho morre aqui. Venha ele do norte ou do sul, daqui não passa. Já estou a criar um grupo no FB para mobilizar uma equipa de mitigação. 
Isto ainda vai demorar algum tempo, mas na quarentena, não falta tempo.

Para fazer as pazes, esta noite teremos um jantar à luz das velas, também para poupar luz. Já pus duas latas de atum a marinar. Vai ser um manjar. Atum ao natural em cama de arroz.
Vamos sentar-nos cada um num topo da mesa para manter as devidas distâncias e a mesa é grande. Logo à noite dormimos juntos, que na cama o bicho não pega. E também..se correr o bicho pega e se ficar o bicho vai comer. Mais vale ficar. Fiquem...bem.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Dia 10

Alguém tem uma receita doméstica para fazer unhas de gel? A minha senhora passou-me as unhas pelas costas, mas como as unhas já estão meias lascadas arrancou-me uma peça de carne, do tamanho de uma bifana das pequenas. Menos mal que assim já temos jantar.
Ainda liguei a uma pessoa a ver se não tinha por lá um workshop em suspenso sobre unhas de gel, e que tivesse ficado guardado, à espera de melhores dias. Disse que não. Sobre decorações de natal, ainda arranjava alguma coisa. Mas agora não era o que me fazia falta, e agradeci a disponibilidade, mas fica para outra vez.

Passamos a manhã no Baby TV, como costume. Mas à tarde, lá negociamos outros canais. Depois de fortes e intensas negociações com a minha filha mais nova, lá acedemos. Diz que quer ir à viagem de finalistas a Lloret del Mar em 2037. Dissemos que sim... Pois, tá bem... Se ainda houver Lloret D.C. (depois do Corona). A miúda tem uma personalidade muito forte.

Hoje decidimos ir almoçar fora. E fomos à Figueira, que fica ali entre o limoeiro e os cedros, com vista para a regueira. Montamos lá uma mesa de piquenique e pusemos um guarda-sol que eu trouxe emprestado de uma esplanada numa noitada de S. Paio. 
Estamos fartos de atum e decidimos por unanimidade que era tempo de variar. Pus uma massa a cozer, para acompanhar com umas salsichas. Mas não foram dessas salsichas lingrinhas de lata, são das outras, mais rechonchudas dos frascos de vidro. Que repasto. Ainda havia Cacho Fresco, e eu bebi tudo. A minha Senhora agora não bebe, por causa da menina.

Ao final da tarde tivemos uma visita. Era uma senhora baixinha, com os óculos na ponta do nariz, aí com os seus 53, 58 anos. Vinha perguntar se queríamos fazer um teste ao Corona, por 35€. "Então mas a senhora tem autorização para andar na rua? Olhe lá o decreto do Governo..." questionamos. Mas ela vinha mesmo com vontade de nos fazer o teste. Tinhamos que soprar para uma palhinha, montada num aparelho que parecia um comando de televisão dos antigos. Como a gente (eu) tinha estado a malhar no Cacho Fresco, estavamos com o raciocínio um bocadinho embargado. Eu ia a pôr a boca na palhinha, e a minha Senhora trava-me com a mão: "Ouça lá, isso está desinfetado?" E eu aí, percebi a jogada. Ainda tinhamos a mangueira estendida na eira, a que trouxemos do Luisinho aquando da invasão, e bota a correr pela Rua do Feital fora, com a mangueira a malhar-lhe no lombo, da aldrabona. Ide burlar lá pró... calma que és hipertenso.
Isto realmente há gente com tempo para tudo. E tomara a nós que o tempo de quarentena passe rápido.

Esta noite vamos dar festa na Casinha do Feital, para animar a malta. "Remember Bluesky", é o tema e a entrada é livre, limitada à capacidade do espaço, que é de duas pessoas (a minha mais nova não participa porque é menor e o cão costuma deitar-se cedo).

terça-feira, 24 de março de 2020

Dia 9

A manhã acordou com um cheiro insuportável no quarto. "Cheira a gato morto", pensei. Fui mudar a fralda da miúda. Estava sequinha. Deixei-a na sala e fui tomar o pequeno-almoço. Estava calor e abri a janela. A minha Senhora juntou-se a mim, mas foi fechar a janela, por causa das moscas. Encostou a cabeça no meu ombro, e com aquela voz rouca de quem acaba de acordar disse-me ao ouvido: Cheiras a gato morto. E realmente cheirava. Ela não podia gozar muito, porque o cheiro dela não era melhor. Fomos tomar banho (separados) e abolimos a poupança de água e gás.

Hoje foi dia de ir às compras, faltava leite e pão, e mais umas latas de atum, não fosse vir por aí dias piores. Papel higiénico ainda há. Vesti um fato de macaco, uma máscara de soldar nas trombas e luvas, e lá fui. Na fila do supermercado estavam duas senhoras de meia idade e um senhor que manqueja de uma perna. O senhor tinha prioridade, mas as senhoras não gostaram e puseram-se a praguejar. Vem lá de dentro a Sueli e acerta-lhe com duas embalagens de rissóis congelados nas trombas, de cada uma, respetivamente. Parecia que andava a guardar os rissóis para aquele momento. E acabou a discussão. A Sueli voltou para dentro satisfeita, não sem antes chegar à minha beira, com 2 metros de afastamento, e entregou-me uma latinha de atum: "para que não te falte nada", disse baixinho. Obrigado Sueli. Eu aproveitei e fiquei também com os rissóis. Paguei à saída.

Lá dentro o ambiente estava pesado. Os gatos já tinham sido requisitados civilmente para efetuar serviço socialmente necessário. Um controlava as entradas e outro ensacava as compras. Como o vírus não ataca os bichos, achei boa ideia. A Maria já tem a voz rouca de tanto gritar com os velhinhos que vêm depois da hora legal. Faz lembrar o Pai Natal que costuma estar por lá nas vésperas do Natal.

Aviei-me o mais depressa que pude e voltei a casa, também o mais depressa que pude. Pelo caminho ainda passei pela Elisabete que ia arejar as flores à loja e fazer um arranjo, talvez. Levantei-lhe a mão, mas ela não me viu. Se estiveres a ver isto, era eu.

Em casa encontrei o costume. Fui à caixa de correio e tinha uma carta das Finanças. Era SPAM, foi pró lixo imediatamente. Entretanto liguei ao responsável do executivo municipal por causa da recolha do lixo. Queria ver se podiam vir buscar-me o lixo dentro de casa, para evitar grandes deslocações ao exterior. Começou a explicar-me que não podia, tomara eles que não faltasse pessoal para recolher o lixo dos contentores, quanto mais dentro de casa. Realmente...quando as pessoas não querem...

Pra mudar a ementa diária, pus um bocadinho de óleo a aquecer, para fritar os rissóis. Olhei melhor para a embalagem e dizia: rissóis de atum. Ora porra. De qualquer forma trouxe uma garrafinha de Cacho Fresco, que no fundo vai saber a Moet Chandon, dado que já não se bebe álcool há muito tempo no Feital.
Mas a verdade é que o tempo é coisa que passa rápido nesta quarentena.

Já escolhemos o que fazer no serão de hoje. Vamos jogar à sueca. Eu e o cão, e a minha Senhora com a minha filha mais nova. O cão percebe do jogo. Põe-se a piscar o olho quando tem trunfos altos. Mas também pisca o olho quando a orelha lhe cai para a frente e eu fico desorientado.

Dia 8


EU
Bons dias minha gente
Não se está nada mal
Venho aqui muito contente
Montar-vos um arraial
Cantar esta desgarrada
Da quarentena no Feital
ELA
Da quarentena do Feital
Canto eu e cantas tu
começo eu a dizer mal
Ai castigo de Belzebu
Não nos falta o papel 
Para limpar o...sim senhor
EU
Para limpar o sim senhor
Com papel açambarcado
Enchi o carro com vigor
Lá no supermercado
Pra não chegar ao hospital
Com o cu mal lavado
ELA
Com o ...mal lavado
A conversa já cheira mal
Neste país tão mudado
Deste vírus anormal
Fez mudar a nossa vida
Até na Casinha do Feital
EU
Até na Casinha do Feital
Nós achamos exagero
Chegar isto a Portugal
Povo rijo como um pero
Veja-se agora como está 
Tal é o desespero
ELA
Tal é o desespero
Mas não precisa da NASA
Aviso daqui meu parcêro
Não faças cá tábua rasa
Para combater este vírus
É preciso #ficaremcasa
EU
Pois é preciso ficar em casa
Não é fácil eu te digo
Eu só penso em bater a asa
E fugir do nosso abrigo
Mas penso na minha menina
E fico, e fujo ao perigo
ELA
Ai ficas e foges ao perigo
E não me livro da macacada
Tu és tolo meu amigo
Tu não sossegas nem nada
Isto de ficar fechado em casa
Vai acabar à batatada
EU
Acabar à batatada
Eu não posso concordar
A casinha fica arrumada
Que eu também vou arrumar
Só não arruma o cão
Que só está bem a ladrar
ELA
Ele só está bem a ladrar
Eu não quero mais nenhum
Mas o bicho tem que se ocupar
Isto não é um trinta e um
Tem mais sorte que nós
Não está sempre a comer atum
EU
Não está sempre a comer atum
E nem anda esfomeado
Nós cá vamos comendo algum
E foi todo açambarcado
Lá na Maria e na Sueli
Do nosso Supermercado
ELA
No nosso Supermercado
E noutras lojas também
É preciso estar preparado
Para o que ainda aí vem
Gabo-lhes a paciência
Mas há de correr tudo bem
EU
Mas há de correr tudo bem
Digo-te a ti, minha menina
Se o pior ainda aí vem
Fica a vida pequenina
A quem não se resguardar
Do vírus que veio da China
ELA
O vírus que veio da China
Dizem que foi inventado
Mudai lá a vossa rotina
Se vós não tindes cuidado
Seja da China ou não 
Fica o povo todo infetado
EU
Fica o povo todo infetado
Mas aqui no nosso Feital
Anda aqui tudo animado
De quarentena menos mal
A espalhar mais uns sorrisos
Nesta rede social
ELA
Nesta rede social
A desgarrada já vai comprida
É melhor chegar ao final
E ir tratar de vida
Pra afugentar esse Corona
É matá-lo com pesticida
TODOS
Matá-lo com pesticida
Isso era uma festa assim
Mas a esta gente querida
Cuidai das tosses e atchim
Ligai se tiverdes com febre
Ao SNS24, enfim

Ao SNS24, enfim
Diz-vos esta cantiga vaidosa
Que agora chega ao fim
Com uma dica generosa
Lutai pra depois tudo ver
Mais forte a nossa Murtosa

domingo, 22 de março de 2020

Dia 7

COMUNICADO DA JUNTA DE LIQUIDAÇÃO DA REPÚBLICA POPULAR DA RUA DO FEITAL

Hoje de manhã fomos invadidos pelo Corpo Expedicionário da Junta de Freguesia do Bunheiro para impedir a subversão e a continuação de movimentos independentistas. Ouvimos rumores de que os Passadouros e Vessadas, assim como o Estrepal, ameaçavam seguir os nossos passos, mas a mão firme da Presidente da Junta acabou com a intenção desses movimentos autonómicos e pôs fim à experiência de Governo Popular na Rua do Feital.

De manhã cedo, por volta das 10h30 (é domingo e não há missa) uma bomba de mau cheiro rebentou na janela do nosso quarto no Palácio do Regedor. Primeiro pensei ser da falta de banho. Mas depressa percebemos que era um ataque sem precedentes. Empurrei a Secretária Geral das Relações Externas da cama, e pedi-lhe para vir contra-atacar comigo. Não quis vir, porque tinha sono. E assim eu também não fui. Ou contra-ataca tudo, ou não contra ataca ninguém. Acabamos por pedir um cessar fogo ao fim da primeira largada de morteiros. Rendemo-nos de imediato, mas exigimos condições.

Pedimos uma amnistia geral, e as negociações ficaram à responsabilidade do nosso Regedor Emérito, e do lado de lá com a Presidente da Assembleia de Freguesia, a quem dirijo uma palavra de apreço por nos deixar ficar com o stock de papel higiénico que havia no nosso entreposto comercial. É áspero, mas é nosso.

Tudo correu bem e agora saímos com a nossa posição reforçada. Continua tudo na mesma, mas fica bem dizer isto. É como um jogo de futebol que acaba empatado. Ficou zero a zero, mas no fim ganha o Benfica. Ficou já definido que no próximo ano, a nossa Zona vai à frente nas Marchas de São Brás.

No final deste Comunicado dirijo uma palavra de gratidão ao povo da Rua do Feital e aos nossos correligionários que sempre me apoiaram.

FIM DE COMUNICADO

Na Casinha do Feital a vida continua com a normalidade possivel.
O cão passou a uivar 3 vezes ao dia. Parece uma sirene de fábrica, para avisar que são horas de comer. Não é que a gente se esquecesse, mas são estratégias para vencer o tédio. Está a correr bem para ele. Melhor do que a nós. Já anda nisto há um tempo
E realmente não falta tempo. Nem a ele, nem a nós.

Hoje é noite de ir à janela fazer qualquer coisa para agradecer não sei o quê. Todas as noites há uma nova.
Às 22h vamos à janela em tronco nu fazer 20 flexões, a ouvir o Toy a cantar o Toda a Noite, para homenagear a malta que tem de trabalhar dia e noite para manter isto a funcionar. Já estivemos mais finos do juízo.
Está um cheiro estranho em casa

sábado, 21 de março de 2020

Dia 6

COMUNICADO DA REPÚBLICA POPULAR DA RUA DO FEITAL

Concidadãos e Concidadonas
Face ao gravíssimo estado a que chegou o país, decidimos por unanimidade dos presentes (eu, a minha senhora, a miúda e o cão) encerrar as fronteiras da Rua do Feital com o resto do território, criando a República Popular da Rua do Feital.
Fui eleito Regedor da Região, sendo o Ti Zé nomeado Regedor Emérito. 

Para evitar contactos sociais com o exterior, foi criado um cordão sanitário, mas só não passa quem não quiser. Solicitei ao Ti Pinho o bloqueamento da Rua a norte com o trator, e a sul dinamitamos o muro que tombou para a estrada. Todas as travessas e ruas adjacentes foram bloqueadas com sacas de ração, cestos de vime e caixas de fruta, nomeadamente.
Pedi a um residente do território vizinho da Travessa da Lagoinha para atravessar o camião na estrada, deixando apenas uma pequena nesga para se passar a pé. Será a nossa única via de contacto com o exterior para irmos à extensão de saúde e à farmácia da doutora Filipa, apenas e se necessário.

Foi já estabelecido um Gabinete de Crise, nas instalações provisórias do Núcleo Sportinguista do Feital, uma vez que estão habituados a lidar com crises. A Presidência será assumida por um ilustre sportinguista filho desta terra, co-adjuvado por outro ilustre sportinguista residente desta mesma rua, que prontamente responderam ao convite.

Reativamos a loja da ti Carma para servir de entreposto comercial para colmatar as nossas necessidades alimentares e outras. 
Já nos chegou a primeira remessa de papel higiénico de um fornecedor chinês. Relembro os concidadãos e concidadonas que antes do vírus a empresa produzia lixa grossa. O papel higiénico é ligeiramente mais áspero que o normal, mas o rabo tende a habituar-se. 

De imediato pedi à nossa Secretária - Geral das Relações Externas que vem a ser a minha Senhora para estabelecer contactos com as regiões vizinhas para não perdermos a forte ligação que nos une a elas. Só recebemos resposta da Comunidade Autónoma das Terras da Beira Ria e Bestida. Do Ministério dos Negócios Estrangeiros, localizado nas instalações na Mamaparda, recebemos a informação de que havia interesse em manter ligações amistosas com a Rua do Feital, pelo que já estamos a efetuar acordos bilaterais. Já instalamos a nossa embaixada no Snack Tasca o Farol.

Estabelecemos um Corpo de Forças Armadas na Sede da Seleção Vinícola, embora já se considere que o edifício esteja em território vizinho, mas como ficou pra cá do camião e foi pacífica a tomada das instalações, agora é nosso. Dos 3 Ramos das Forças Armadas, para já só temos Marinha. Trata-se de um mergulhador que percorre diariamente a Regueira do Feital, para evitar açambarcamentos e invasões. O Comandante Geral é, temporariamente, o Regedor Emérito.

Ainda não temos Corpo de Bombeiros. Fizemos uma requisição civil, mas não obtivemos respostas. Começamos a adquirir material necessário. O Gabinete de Crise tentou a importação de mangueiras, machadinhas e capacetes da Casa Barrega, mas não há stock. Mais logo a nossa task-force (ainda por criar) invadirá a República Federal de Beduido e Veiros para nacionalizar temporariamente o Luisinho e trazer de lá o material necessário.

Parece fácil, mas tudo isto foi feito num dia só e cansamo-nos muito e continuamos sem banho. Temos uma nova vida pela frente. A Rua do Feital não será mais a mesma.
O tempo dirá se foi a melhor decisão. E como sabem, tempo não falta nestes dias.

Esta noite haverá Conselho de Estado do Feital, por vídeo conferência. No fim vamos assar uma chouriça de atum. O vinho é tinto, recebido após requisição civil, à Casa da Ermelinda. Do bom. 

sexta-feira, 20 de março de 2020

Dia 5


Dia 5
O dia não começou bem. A minha filha mais nova aproveitou uma distração da mãe para alterar a normalidade democrática cá em casa. Fez convocar uma reunião extraordinária do condomínio da Casinha Feital, com o apoio do cão, que tem a permilagem maior, visto que a casota tem vista para a regueira.
Da ordem de trabalhos constava a destituição do administrador. E claro que fui destituído pela minha própria filha. 
Queixou-se da limpeza e falta de desinfecção dos espaço comuns, perguntou onde é que metemos o dinheiro do Fundo Comum de Reserva e não admite que há mais de 2 anos não haja um elevador a funcionar no edifício. Isto para não falar da infiltração que vem do terraço do vizinho de cima. Ainda tentei demovê-la da ideia, porque moramos numa moradia térrea e o único vizinho de cima que temos, é algum rato que entra pelo telhado, mas ela não foi na conversa. Sobre o Fundo Comum de Reserva eu não disse nada. Mas ela acha que a mobília do quarto dela caiu do céu?

Entretanto a mãe regressou. Pedimos a Intervenção da ONU. Perguntaram se tínhamos advogado. Dissemos que não. Responderam: "Tristes. Todos os condóminos têm advogado." Lá mandaram um enviado especial. Mandaram a Ana Tavares que está habituada a lidar com confusões no mundo dos andebóis entre adeptos, jogadores e árbitros, portanto isto havia de ser mais pacifico.  Impugnamos as deliberações da reunião anterior e só depois de subornar o cão com o resto do jantar de ontem, voltamos à normalidade democrática.

Já eram seis da tarde quando normalizou, não sendo necessária a presença de capacetes azuis. A Ana foi embora, notoriamente cansada, mas satisfeita com o desfecho e levou duas latinhas de atum, para usar quando tiver tempo.
Mas tempo é coisa que nos sobra a todos nestes dias de quarentena.

Descobrimos na net uma importante receita para desinfetar o corpo e ajudar a prevenir a entrada do vírus. O sal é um importante neutralizador corporal, e o limão auxilia na desinfecção, assim como uma pequena dose de álcool. 
Corta-se meia rodela de limão, e esfrega-se ligeiramente na zona de pele entre o dedo indicador e polegar (para humedecer) e coloca-se uma pequena dose de sal (q.b) nessa zona. Lambe-se o sal, bebe-se uma dose curta de álcool (misturado em tequila) e trinca se a rodela do limão, para chupar o sumo.
Repetir as vezes necessárias até adormecer e deixar-se ficar em casa. 

O tempo está de chuva, nem apetece sair de casa.

Hoje não temos planos para a noite. Estamos exaustos com tanto exercício democrático. Continuamos a medida de poupança de água e gás, e decidimos continuar sem banhos, mas agora, dia sim, dia sim senhor. Estamos bem. Até porque ainda há papel higiénico.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Dia 4

Já nos habituamos a esta vida. E até estamos a gostar. Hoje foi dia 'não' dos banhos. Não se nota diferença. Talvez seja para manter.

Quisemos partilhar com o mundo as nossas experiências e criamos uma página no FB para influenciar os outros com formas de vencer com positividade esta cena ruim. Ao fim de 3 horas tínhamos 2 seguidores desaparecidos, enterrados em centenas de comentários e fake news, daquelas cenas que a malta partilha e que no fundo é tudo mentira, e mais umas centenas de "angry faces" e "não gostos". A gota de água foram as mais de 5 ameaças de morte, vindas de pessoas bem calmas e que vão à missa e tudo (quando havia missas).
Apagamos a página. Se é pra morrer que seja da doença e não da cura.

Não sei se com a emergência nacional uma pessoa pode ir à Ribeira do Gago ou não. Deve depender do polícia que aparecer pela frente, como o outro em Ovar. Adiante...Era para ir à Ribeira do Gago passear o cão, mas por causa da Emergência Nacional não fui. Vai daí fui lavar o telhado, sempre se arejam as vistas. Tentei lavar o telhado mas a mangueira era curta. Liguei pro Barrega. "Tendes por aí uma mangueira mais comprida que a minha?", perguntei. Desligaram, e mandar-me para um qualquer sítio rimado com alho. Anda tudo muito nervoso. Esfreguei as telhas com uma vassoura. Todas, menos as de vidro. É preciso muito cuidado com os telhados de vidro. 

A minha filha mais nova acordou a choramingar a meio da noite. Disse EU para a minha Senhora: olha a menina. Ela abraçou-me e disse-me ao ouvido, naquele jeito doce: atura-a que também é tua. Lá peguei na miúda, ela desejou-me um Feliz Dia do Pai e ofereceu-me uma fralda cagada. Depois disse que queria ver os bonecos na televisão. Andamos todos, todo o dia, a ver a Baby TV, agora também temos de aturar isso à noite? Tentei explicar-lhe que não era possível, em troca pediu-me 2 biscoitos da Sofia. Aceitei o acordo. A minha filha tem jeito para negociar. Vai é matar-me quando perceber que só há bolachas maria.

Hoje apostamos num jantar diferente. Vai ser uma caldeirada de potas que ainda havia ali numa lata. Talvez não seja bom para o sistema digestivo que já está habituado só a atum. A sorte é que ainda há papel higiénico. E podemos passar um bom tempo na casa de banho. 
Mas tempo, não nos falta nesta quarentena.

Para acompanhar fizemos pão caseiro com uma receita que alguém partilhou para fazer na Bimby (obrigado, mas não temos Bimby). Foi a cozer no forno a lenha, que estava um bocadinho quente (talvez demais) mas ficou muito bom...bom para usar como carvão para assar umas entremeadas de atum amanhã.

Já estamos a caminho de uma noite que vai ser serena. Voltei a falar com normalidade com a minha senhora. Não fazia sentido manter hostilidades com a única pessoa que me atura nesta quarentena. Não vamos ver televisão porque é hora de enterrar o machado de guerra.  Vamos brincar aos índios... e cowgirls. Wish me luck !!!

quarta-feira, 18 de março de 2020

Dia 3

À hora que escrevo, já sabemos que vamos entrar em Estado de Emergência Nacional. Cá por casa já não é novidade. A experiência está a ser positiva. Estamos em Estado de Emergência do Feital. Já não falava com a minha Senhora há 16 horas. Hoje falou-me e nem estava a reconhecer a voz. 
Perguntou-me o que queria almoçar. Será que eu tinha escolha, ou estava a arranjar motivos para discutir comigo? Disse eu "atum", a medo. Calou-se. Perguntei-lhe o que se passava. Respondeu: NADA. Está claro que comemos atum, e eu acompanhei com arroz de trombas e nem me queixei.

Para poupar no gás e na água, optamos por tomar banho dia sim, dia não. Ainda fizemos duas partilhas no Facebook, de uma publicação a pedir isenção de pagamentos de prestações, mensalidades e afins... não deu resultado. Veremos se a falta de banho não terá outras consequências.

Continuamos a beber muita água para ver se empurramos o vírus do esófago, para morrer nos ácidos do estômago. Para já, não adoecemos. Deve resultar. Mas vamos passar a consumir mais espumante. Assim deve ir arrastado mais facilmente nas bolhas, e morrer no álcool. Compramos 10 caixas de São Domingos, Reserva. Não deve chegar à Páscoa.

A minha filha mais nova não parece acreditar nestas coisas do virus. Continua a meter os pés na boca sem desinfetar primeiro. Desistimos de a chamar à atenção. Na noite passada cismou que queria gomas. Lá fui eu, de capucho, luvas e máscara a uma loja de conveniência aqui perto. Quando lá entrei parecia que ia comprar um saco de droga (nem sei se isso se vende ao saco ou em pacotes, como se fossem barrinhas de cereais). Estava lá um senhor que garantidamente não vai morrer de Corona. Quando a mulher souber quanto ele gastou no Placard e em raspadinhas... não vai chegar à Semana Santa para mostrar arrependimento. E ainda por cima com a mulher que ele tem.

O cão passou a ignorar-nos. Depois de nos ver tantos dias em casa, olha para nós como quem diz: vá, venham lá as más notícias, eu aguento, com calma, temos tempo.
E tempo é coisa que há a mais nas quarentenas. 

Para esta noite vamos assistir e acompanhar instrumentalmente um concerto live num canal de youtube de uma conhecida rádio. Estamos à espera do link. Depois partilhamos. Vou afinar o reco reco.

Dia 2

Hoje acordamos cedo. Muito cedo. Nada que não se esperasse. 
Fomos fazer uma corrida matinal junto à Regueira do Feital mas não nos afastamos muito de casa. 
Não vimos ninguém durante o passeio.  

Ouvimos dizer que uma prima, da cunhada de uma senhora que nunca ouvimos falar, trouxe o virus para Portugal enrolado numa raposa que as pessoas chiques usam ao pescoço. Acreditamos, porque foi num vídeo partilhado do Facebook.

Já estamos fartos de atum. Mandamos mensagem à Maria do Supermercado para ver se nos arranjava uma ou dez embalagens de rissóis de leitão. Disse que já não havia. Em troca tinha Cachaça 51 e limas, ou um Bolsonaro. Preferimos a Cachaça e as limas, até porque temos açúcar e gelo em casa. Não queremos o Bolsonaro, porque tolos já temos que cheguem. 

Ontem ouvimos a Ministra a dizer para não deixarmos de trabalhar. A ministra deve ser parva a mandar-nos trabalhar a tão poucos dias da páscoa.

Tocaram-nos à campainha. Estranhamos. 
Foi a minha Senhora que lá foi. Vinham vender gordura de réptil rastejante para uma acção positiva de defesa da integridade pessoal. 
"Banha da cobra", pensou ela, "só se for para fazer rojões de atum", disse-lhes. Ficaram ofendidas. Tanta negatividade. 

De resto, ainda há papel higiénico. Há de chegar para o tempo que falta da quarentena. 
E tempo, é coisa que não falta.

Logo à noite vamos fazer biscoitos de gengibre. Mas não temos gengibre, só cachaça e limas. Há de correr bem.

Dia 1

A verdade é que só hoje começamos a quarentena cá em casa. Ontem foi fim-de-semana, e ainda fomos tomar o pequeno-almoço fora, numa pastelaria cheia de gente, porque ouvi dizer que o vírus só ataca da parte do meio-dia. 
Hoje foi fácil. 
Começamos as arrumações. Casas pequenas... Onde raio é que se junta tanta tralha?
Desistimos depois de levantar o sofá. Não imaginam lixo que por lá se acumula. Estão a ver aquela moeda de coleção que se perdeu num dia de Páscoa em 2019 A.C. (antes do Corona)? Não estava lá, mas não estava porque não queria. Passava bem despercebida no meio do resto.

O cão olha-nos com estranheza, com aquela cara "outra vez por cá?". Não está habituado. 

Decidimos fazer uma ementa para os dias que nos esperam. Temos 50 latas de atum, 20 pacotes de esparguete e outro tanto de arroz. Pede-se imaginação. Está difícil.

Terminamos hoje o primeiro rolo de papel higiénico. Entramos em pânico, ou isto tende a melhorar com o tempo?

Tempo... é coisa que não falta em quarentena. 

Logo vamos ver um filme. Daqueles que vão repetir 500 vezes nas próximas semanas. Mas vamos deitar-nos cedo para não aborrecer. Não aborrecer hoje, porque vamos acordar mais cedo e, portanto...aborrecer amanhã.

(Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência...ou talvez não).