domingo, 29 de março de 2020

Dia 12

Esta noite passei várias horas em claro a pensar numa coisa: já pensaram se isto dura até ao S. Paio? É que a Páscoa e respetivas celebrações já não vão ser o que era, mas... Mais um ano sem fogo de artíficio? Este povo não aguenta tanto sacrifício. Eu até já parece que estou a ver a página do Facebook Torreira inundada por dezenas de posts e comentários jocosos e outros enganadores, mais uns bonequinhos...
Uns por um lado: "Ai mas no Furadouro vão fazer."
Outros por outro lado: "Oh menina, dentro da cerca santária eles fazem o que quiserem"
Não é fácil.

A meio da tarde fui esfregar a eira, com uma vassoura já meia descabelada que temos para esse efeito. Pus umas calças mais velhas, e uns sapatos que já andavam meio pintados, por alturas do carnaval. O cão não me largava, como de costume. Depois foi pro jardim, e começou a escavar, lá ao fundo, junto à regueira. Deixei-o estar. O pobre tem que se entreter com alguma coisa. Vai daí começo a ouvir as unhas dele a bater em qualquer coisa metálica. Fui lá e eram restos fósseis de um tacho. Ainda havia ossadas de enguias dentro do tacho. Provavelmente da idade média, do tempo em que havia enguias na regueira. Vou guardar. O tacho ainda há de dar jeito, para uma caldeirada de atum.

A minha Senhora deve ter feito alguma. Quando acordamos começou a abraçar-me a dar-me beijinhos no pescoço. "Olha aí, cuidado com o vírus", dizia eu com medo, claro está. Quanto mais eu alertava, mais ela me prendia com os braços. Eu bem que resisti, e ainda acenei com um desdobrável da DGS que lá tenho na mesa de cabeceira, mas qual quê... 
Depois estava a cozinhar uma salada de atum pró almoço e vem ela e agarra-me à falsa fé pelas costas, e enrola-me em papel higiénico. "Não gastes isso mal gasto", alertei eu.
Quando andava esfregar a eira, veio tirar-me a vassoura da mão e começa a puxar-me para dançar. "Que é que tu queres?" perguntava eu. "olha os 2 metros de distância higiénica. Não estão a ser respeitados". 
Isto não há fome que não dê em fartura. De qualquer das maneiras, mais logo pela noite, com mais tempo, vou tirar tudo a limpo. É que em quarentena às vezes parece que nos foge o tempo, e há que aproveitá-lo bem.

Estamos a pensar mandar vir comida de um teique au éi, porque não nos apetece cozinhar e eles prometem que cumprem todos os padrões de segurança e higiene. Só espero que eles tirem as luvas quando vão à casa de banho.
Já montei uma cerca sanitária na cama, por via das dúvidas. Cada um do seu lado, para guardar as distâncias sanitariamente aceites. O problema é que eu vou saltar a cerca.

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