domingo, 29 de março de 2020

Dia 14

Hoje é Domingo, e ainda por cima mudou a hora. Andamos todos trocados.
Ao início da tarde calhou-me na rifa ir adormecer a minha mais nova. A miúda insistiu que eu contasse uma história. Não me lembrei de outra a não ser esta: 

Era uma vez, uma linda menina, que vivia com os seus dois irmãos numa bela aldeia. Um dia, porque era preciso manter o distanciamento social, decidiram construir cada um a sua casinha. Um deles, que era preguiçoso, fez uma casinha de palha, o outro fez de madeira e a menina fez uma casinha de tijolo. 
Foi então que veio um Lobo Mau de Espanha, e ameaçou soprar nas casinhas para as deitar abaixo, se não o deixassem entrar. Os 3 irmãos saíram a correr das suas casinhas e, muito indignada, a menina gritou para o lobo:
- Você pode parar com isso? Sabe muito bem que ao soprar pode expelir goticulas de saliva ou outras secreções, e sabemos lá se você está contaminado com o COVID... E como é que você passou a fronteira de Espanha? 
Ao ouvir aquelas palavras, o lobo fugiu num ápice e deixou o caminho livre para os 3 irmãozinhos fugirem. 
Queriam voltar a casa dos paizinhos, mas como não tinham a certeza do caminho foram deixando migalhas de pão, para poderem voltar para trás quando se sentissem perdidos. Seguiam no seu passeio higiénico, mantendo a distância de 2 metros, para evitar contágios.
Entretanto foram abordados por uma patrulha da GNR que os alertou: 
- Vós já visteis que estais a largar migalhas de pão, sem terdes desinfetado devidamente as mãos? E se algum indivíduo apanhar as migalhas que vós largasteis e ficar infetado? 
Depressa os irmãozinhos deixaram aquele mau hábito de mexer na comida sem desinfetar as mãos. 
Estavam já perto de casa dos paizinhos, quando repararam numa pequena casinha escondida no bosque e decidiram espreitar. Na cozinha havia 7 pequenos bancos, de volta de uma mesa baixinha e no quarto, 7 pequenas caminhas. Estranharam ser tudo tão pequeno. Eis se não quando chega um autocarro sobrelotado, mas de onde sairam 7 anões, que voltavam do trabalho. Ficaram indignados porque não pode haver aglomerados de pessoas nesta altura, e estavam ali mais 3 pessoas que não tinham justificação plausível. Um dos anões espirrou e foi um ver se te avias. Fugiram todos, cada um numa direção diferente. 
A menina foi a primeira a chegar a casa e a mãe ordenou que imediatamente lavasse as mãos. Passou uns bons 2 minutos de volta da pia da louça até que a mãe lhe pediu que fosse a casa da avózinha levar um lanche reforçado de laranjas por causa da vitamina C.
Ela foi pelo caminho mais longo, porque já sabia que o mais curto era perigoso. Não encontrou ninguém de jeito pelo caminho, só um príncipe encantado muito triste que tinha sido proibido de beijar a bela adormecida, para evitar os contactos físicos.
Quando chegou a casa da avózinha, encontrou a velhinha deitada na cama, com os olhos muito grandes e uma boca ainda maior. Provavelmente estava a ficar doente. Mais rápido que um relâmpago entrou no quarto um caçador armado em parvo, que desatou aos gritos: 
- A menina sabe na alhada que pode está a incorrer ao visitar a sua avó perante as circunstâncias dos factos? As pessoas mais idosas devem evitar contactos desnecessários e eu estou encarregue de alimentar a sua avó, portanto ponha-se a andar. De facto, já ouvira falar que a avó tinha um companheiro, mas não sabia que era caçador.
Assim, muito triste, a menina isolou-se também. Subiu a uma torre bem alta e não saiu mais de lá. Nem para ir às compras. Mandava vir tudo pra casa por um pombo correio (com as vacinas em dia) e depois puxava tudo para o topo da torre com o seu longo cabelo, que deixou crescer, uma vez que não havia estabelecimentos abertos, inclusive as cabeleireiras. E assim viveu feliz para sempre, sem ter página no Facebook, nem conta no Netflix.

Vitória Vitória, acabou-se a história.


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